Mensagens

A responsabilidade da parentalidade

Imagem
    A decisão de ter um filho deve ser ponderada, realista, responsável e esclarecida.   Em primeiro lugar, é preciso ter desde logo presente que o papel de pai e de mãe não é um conto de fadas e que exercê-lo está muito para além da simples condição de progenitor. Angústias mais ou menos intermitentes, cansaço inerente aos cuidados e à responsabilidade, alterações da dinâmica do casal e das suas relações sociais e lúdicas e uma amargura constante relativamente à impossibilidade de garantir em absoluto a felicidade, a segurança e a saúde de um filho são parte relevante das vivências da parentalidade.   Em segundo lugar, uma vez que um filho é sempre alheio à decisão da sua própria criação e nascimento, o alcance da obrigação cuidadora dos pais não se deve esgotar na satisfação directa de necessidades elementares como a alimentação, os afectos, a saúde ou a educação. Uma participação activa na comunidade e, num sentido mais amplo, no mundo, procurando melhorá-lo, deve...

Consequências da patologia da (i)literacia e demográfica

Imagem
    Há quem, legitimamente, defenda a saída de Portugal do Euro e da União Europeia (UE), sendo contra as economias liberais de mercado e as regras orçamentais europeias, tenha uma repulsa pela atividade privada empresarial e se debata pela estatização da economia. Contudo, num planeta que, no âmbito do desenvolvimento tecnológico, é uma autêntica aldeia, como financiar as políticas de despesa reclamadas num Estado falido e dependente de terceiros? Com Programas de Recuperação e Resiliência (PRR’s)? Deveras paradoxal: clamar, por exemplo, pela saída da UE e do Euro, mas aceitar de bom grado PRR's, não para criar riqueza (que pode, e deve, ser usada para combater as desigualdades sociais), mas para financiar despesa rígida!      As razões para que quase 50 anos depois do 25 de Abril os portugueses insistam em modelos que adiam o nível de desenvolvimento sócio-económico desejado são estruturais e multifactoriais. Uma sociedade complexada, com uma literacia e capac...

Cannabis: droga “leve”?

Imagem
A adjetivação de uma droga de “leve” induz uma percepção distorcida das reais consequências de determinadas substâncias na saúde em geral. Relativamente à saúde mental, essa distorção é agravada pelo facto de, como habitualmente, o impacto nesta área ser menosprezado ou completamente ignorado. Assim, julgo ser conveniente expor as considerações seguintes: Ao contrário do que acontece na língua inglesa, onde a palavra “ drug ” é usada indistintamente, na língua portuguesa existem duas palavras que discriminam e esclarecem as diferenças entre determinadas substâncias. Desta forma, “medicamento” designa um produto com propriedades terapêuticas, devidamente estudado, testado, aprovado, regulado e com indicações específicas, e “droga” refere-se a uma substância (legal ou ilegal) que, por força do seu abuso e/ou uso indevido, promove problemas graves de dependência física e/ou psicológica, com profundo impacto funcional na vida sócio-familiar e laboral de um indivíduo. A legalidade ou ilegal...

Somos cérebro

Imagem
A Psiquiatria é, ainda hoje, uma especialidade médica olhada com desconfiança e preconceito por muitos, quer na comunidade médico-científica, quer na população em geral. É, também, comum e erroneamente associada a esoterismos e misticismos. Como resultado desta percepção desajustada, um marcado e lamentável estigma pende sobre os doentes psiquiátricos, contribuindo para a sua alienação social. Assim surge a renitência das pessoas em recorrerem prontamente à psiquiatria quando se encontram em sofrimento mental (por receio da conotação pejorativa associada à especialidade) ou o desconforto em assumirem perante amigos e/ou familiares que são doentes ou precisam de ajuda. Uma das principais razões por que a psiquiatria continua a ser para muitos enigmática é a incompreensão e a recusa generalizadas de que nós (seres humanos) somos cérebro. A nossa personalidade e, portanto, a forma como agimos, reagimos e nos emocionamos é resultado do funcionamento desse órgão. Isto não quer dizer que não...

O Edicto

Imagem
  https://drive.google.com/file/d/1KIs-g-zPgQCGJyqhIQGp-rbn-AvrpDmQ/view?usp=drive_link

Querer que 2+2 passe a ser igual a 5

Imagem
  No início de 2020, sem ter ainda uma noção clara da natureza e potenciais consequências nefastas do novo coronavírus, confesso que me encontrava relativamente tranquilo em relação a um putativo impacto global negativo desse microrganismo. Também, em face da relativa gravidade das epidemias anteriores do século XXI, não pensei que a situação pudesse atingir contornos tão dramáticos. Assim, num primeiro instante, quando o problema não era, ainda, aparentemente catastrófico, não pensei serem necessárias grandes medidas para além de uma atitude expectante e vigilante. Contudo, tudo mudou quando vi e ouvi os alertas e  relatos verdadeiramente aterrorizadores  dos médicos italianos relativamente ao que estava a acontecer naquele país. Nesse momento, todos os meus alarmes interiores soaram e a minha preocupação aumentou significativa e proporcionalmente à seriedade da situação. Apressei-me a intensificar a leitura científica de modo a informar-me o melhor possível acerca do no...

A Profissão Médica

Imagem
    Os médicos fazem o juramento de Hipócrates e comprometem-se com um código ético-deontológico que, no fundo, consagra o princípio da dedicação e da lealdade para com as pessoas e os doentes. Porém, em nenhuma circunstância os médicos, que exercem uma profissão legalmente regulada (com direitos e deveres), juram dar literalmente a própria vida ou a comprometer a própria saúde pela de outro ser humano. Aliás, como é sabido, nos cursos de suporte básico de vida (SBV) é ensinado que, caso não estejam reunidas as condições de segurança que salvaguardem a vida ou a saúde dos profissionais, é legítimo que eles ou não se aproximem da pessoa a necessitar de cuidados (por exemplo, uma vítima inconsciente encurralada num edifício em chamas prestes a ruir), ou não realizem determinadas manobras que coloquem em causa a sua própria saúde (por exemplo, no caso de uma vítima inconsciente e desconhecida, a necessitar de manobras de SBV, que sangra pela boca, é aceitável não fazer as insufla...