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A Saúde Mental em Portugal e os resultados que tardam

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  As repetidas notícias que colocam Portugal nos lugares cimeiros ( Mais de 47% dos portugueses vivem com perturbações neurológicas e Portugal lidera doenças psiquiátricas na Europa ) de maior carga de doença psiquiátrica e do consumo de psicofármacos (primeiro e segundo lugar, no que diz respeito a ansiolíticos e antidepressivos, respetivamente - Prescrição de Psicofármacos em Portugal, dados da OCDE ) só poderá surpreender os mais distraídos. Aparecer constantemente nesses lugares deveria levar os decisores e os profissionais, de uma forma concertada e uníssona, a agir, a implementar, de facto, o modelo de organização e intervenção que internacionalmente é sobejamente conhecido há décadas como o mais adequado para abordar a doença mental. Como sempre, somos excelentes a refletir. Refletimos, refletimos, refletimos e depois refletimos um pouco mais. Mas demoramos a agir ou fazemo-lo de forma soluçante, vagarosa e, muitas vezes, desajustada. Em 2006 iniciei o Internato de Psiqu...

Multiculturalidade não é Relativismo Cultural

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Multiculturalidade não é (nem pode ser) sinónimo de relativismo cultural. Em sociedades onde vigora o Estado de Direito democrático e laico e o respeito pelos Direitos Humanos, a integração de culturas dissonantes não deve, em nenhuma circunstância, permitir, entre outros, a normalização do casamento (ou relacionamento sexual) com menores, a perseguição e violência de base religiosa, o castigo das mulheres devido a adultério, o estabelecimento de direitos cívicos diferentes consoante o género ou a discriminação com base na orientação sexual ou ideológica. Contudo, sobretudo na última década, em paralelo com um estranho entranhar passivo e generalizado de uma visão kafkiana e infantil da humanidade como uma espécie congenitamente benevolente, foi germinando a crença de que era possível, sem riscos civilizacionais, integrar nas sociedades ocidentais, sem qualquer mecanismo regulatório, indivíduos que não respeitam os princípios fundadores dos Estados de Direito democráticos e laicos. O c...

Apagão - eu ainda me lembro

Ainda me lembro de viver sem telemóvel (só tive um aos 20 anos de idade), sem dramas. Ainda me lembro das pessoas viverem sem cartões multibanco e terem de ir levantar dinheiro presencialmente ao banco, sem dramas. Ainda me lembro de falhar muitas vezes a Luz no meu país, distrito, concelho, cidade ou freguesia (às vezes por bem mais de 24 horas) e ir na mesma para a escola (onde na primária existia aquecimento com salamandra), sem dramas. Ainda me lembro de falhar muitas vezes a Luz, chegar tranquilamente a casa da escola, fazer os deveres, brincar, tomar banho (sim, era possível tomar banho de água quente sem luz) e jantar à noite à luz das velas uma refeição preparada num fogão a gás, numa lareira ou braseiro, sem dramas. Ainda me lembro de falhar muitas vezes a Luz e ninguém ficar histérico, apressando-se a açambarcar bens dos mais variados. É um facto histórico, o ser humano já viveu mais tempo sem eletricidade do que com eletricidade. Uma lição importante da recente histeria: a e...

Multidimensional Study of the Attitudes Towards Euthanasia of Older Adults with Mixed Anxiety-Depressive Disorder

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Full work available on:  https://drive.google.com/file/d/18fOe7xmtv-bJ1iHZO_BPwUeiAw5ghS_H/view?usp=drive_link Introduction: Euthanasia is an ancient theme that, especially since individual autonomy became the healthcare paradigm in contemporary societies, has sparked profound reflections and declared dissensions between different socio-ideological quadrants. The experience of the countries where it is decriminalised shows a tendency to broaden the clinical, age and legal assumptions for its access. People in mental distress due to a psychiatric illness are now able to request physician-assisted death in some jurisdictions. Now, given the impossibility of identifying an incurable or irreversible injury through ancillary diagnostic tests and the fact that psychiatric disorders demand complex and holistic treatments (not always available), where psycho, social and familial approaches assume particular and decisive relevance, it is difficult to determine that a disease is incurable an...

Particularidades da Doença Psiquiátrica do Idoso

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  O Inverno Demográfico , uma hipótese apresentada por Gérard François Dumont para caracterizar o fenómeno do envelhecimento populacional em muitos dos países do mundo, incluindo Portugal, baseia-se na diminuição progressiva da taxa de fecundidade e na manutenção de uma taxa de mortalidade baixa. Morre-se, pois, cada vez mais tarde e o número de nascimentos   tem sido progressivamente menor. As projeções da estrutura populacional evidenciam uma tendência ao envelhecimento demográfico em todos os estados-membros da União Europeia. Em Portugal, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística e dos últimos Censos, entre 2011 e 2021 verificou-se uma diminuição da população em todos os grupos etários, com exceção da população idosa, onde ocorreu um crescimento de 20,6%. Prevê-se que o número de idosos seja cada vez maior e na categoria da idade superior aos 80 anos o crescimento será particularmente acentuado. Em 2018, esta faixa etária representava 6,3% da população port...

Herói? Nunca fui, não sou e não quero ser.

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No artigo de opinião intitulado “A Profissão Médica” , publicado no Observador a 12 de março de 2021, já sublinhei que um Médico exerce uma profissão legalmente regulada, com deveres e direitos. Contudo, em face da degradação contínua a que venho assistindo desde há anos da profissão médica, sinto-me compelido a abordar de novo o assunto No cartão da Ordem dos Médicos lê-se a seguinte citação: "A saúde do meu doente será a minha primeira preocupação". Não, lamento. A minha saúde é a minha primeira preocupação. São estas afirmações que enraízam na opinião pública a ideia da Medicina como um sacerdócio e não como uma profissão . Ao alimentarmos (nós, médicos) esta romantização completamente despropositada, colocamo-nos à mercê da demagogia e do ataque aos nossos direitos laborais. É surreal e degradante uma classe profissional, por exemplo, aceitar ser obrigada a horas extraordinárias ou ter aceitado passivamente que os médicos ficassem impedidos de sair do SNS durante a pa...

Premissas básicas para um País evoluído, dinâmico, influente e resiliente

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Reformar a Saúde Mental

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      Em primeiro lugar, parabenizo o  Observador  por, dentro das suas competências e possibilidades, colocar o tema da Saúde Mental na “praça pública”. Espero que se possam desconstruir tabus, desmistificar preconceitos, combater o estigma, eliminar a desinformação e sublinhar a importância do tema para a sociedade. De facto, apesar do seu enorme impacto clínico, sociofamiliar e económico, as perturbações mentais não têm ocupado o lugar de relevo que merecem, e que se exige, nos centros de decisão. Apesar de vários planos e ideias redigidas, a verdade é que pouco tem saído do papel ou o que sai tem, em geral, sido efetivado de forma soluçante e muito insidiosa.    Pessoalmente, e tomando como exemplo as reformas de saúde mental e a sua operacionalização nos países mais evoluídos (como os escandinavos), considero que há linhas de atuação verdadeiramente essenciais, sem as quais pouco, ou nada, se alterará de significado. O inverno demográfico e a evol...

Nova Pós-Graduação em Psiquiatria Geriátrica

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https://justnews.pt/noticias/nova-posgraducao-em-psiquiatria-geriatrica-para-medicos-de-varias-especialidades O Instituto Universitário de Saúde do Norte da CESPU  vai dar início, no final de março, à sua primeira Pós-Gradução em Psiquiatria Geriátrica, que decorrerá em formato de e-learning. De acordo com o psiquiatra Luís Fonseca, um dos coordenadores científicos do curso, "dentro da classe médica, todos poderão beneficiar com a formação". Contudo, a formação terá uma especial relevância para os médicos internos e especialistas de Medicina Geral e Familiar, Medicina Interna e Psiquiatria , "por força das suas competências e do contacto frequente com a sintomatologia psiquiátrica". Em declarações à  Just News , o docente, que é também o coordenador da formação pré e pós-graduada do Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital da Senhora da Oliveira Guimarães, salienta a pertinência deste novo curso, face ao envelhecimento da população mundial e, muito especial...

Portugal, eternamente vulnerável

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   Em artigo anterior , já sublinhei que ser médico é uma profissão com direitos e deveres, pelo que quem escolhe sê-lo tem, obviamente, legítimas aspirações de ser bem remunerado. Um médico lida com uma necessidade básica consagrada nos direitos humanos elementares, a saúde, assim como outras profissões lidam com outras (um professor com a educação ou um engenheiro com a habitação). Porém, no caso dos médicos, sociedades iletradas, mesquinhas e desdenhosas tendem, geralmente, a vilipendiá-los por terem rendimentos acima da média! Nos países verdadeiramente evoluídos aceita-se tranquilamente que estes profissionais sejam devidamente remunerados e que as horas extraordinárias, desde a primeira hora (em qualquer profissão, aliás), sejam devidamente pagas para compensar o profissional que abdica da sua vida pessoal para trabalhar. Na pandemia, numa situação de aperto, os médicos, e os profissionais de saúde em geral, foram apelidados demagogicamente de heróis. Passada a aflição, ...

Cidadania do respeito pela diversidade

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A Organização da Nações Unidas, constituída em 1945 após a Segunda Guerra Mundial, foi o embrião de um marco axiológico fundamental: o respeito pela diversidade. De facto, após a destruição global e as atrocidades cometidas em duas guerras mundiais, e cientes da necessidade de terminar com a conflitualidade milenar entre as nações que assolara a História da Humanidade, os líderes de cinquenta e um países perceberam que era fundamental um compromisso para a segurança e a paz internacional. O desenvolvimento de relações amistosas estáveis e duradoiras, promotoras de progresso social e de um aumento generalizado da qualidade de vida das populações, passou a estar no centro das preocupações e a nortear as ações políticas globais. O entendimento de que o mundo nada mais era do que uma aldeia e de que a maior riqueza da humanidade era a sua diversidade sedimentaram-se como o esteio de documentos fundamentais, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) ou a Declaração sobre Bioét...

A ansiedade é doença?

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  Antes de abordar o tema a que o título alude, gostaria de iniciar este artigo com duas considerações relacionadas e de grande importância. A primeira, é alertar para a predisposição generalizada das sociedades contemporâneas se focarem numa visão excessivamente idílica do mundo e do ser humano. Por um lado, enfatiza-se, de forma desfasada da realidade, o Homo Sapiens Sapiens como uma espécie inata e generalizadamente dotada de uma bondade pura e, por outro lado, insiste-se num primado do belo sobre o feio (no sentido estético e moral da vida), escamoteando a existência de condições aversivas como a violência ou a crueldade. A segunda, diz respeito à propensão frequente para a “psiquiatrização” de emoções, como a tristeza ou a ansiedade. Porém, estes “estados de alma” têm relevantes funções filo e ontogenéticas, ou seja, são essenciais para a sobrevivência das espécies e para o desenvolvimento harmonioso do indivíduo, respetivamente. A tristeza, por exemplo, é fundamental para rea...

A Prisão Perpétua é um retrocesso civilizacional (menos para os doentes psiquiátricos)

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  Há temas merecedores de debates substantivos, sóbrios e ausentes de corporativismos ou mundividências dogmáticas. A discussão da natureza humana é certamente um desses assuntos e deve, portanto, ser abordada com realismo, sinceridade e sem qualquer espécie de candura que camufle ou distorça, de alguma forma, a essência dicotómica do Homem, onde gravita todo um espectro caracterial entre a pura maldade e a genuína bondade. Partamos, pois, da elementar assunção de que “a matriz Humana é dicotómica (uma batalha permanente entre pulsões de destruição e construção) ” [1], “a maldade, no sentido da prática de atos hediondos e desumanos, não é condição sine qua non de qualquer perturbação psiquiátrica” [2] (de outra forma, não precisaríamos de prisões mas apenas de instituições psiquiátricas) e que “é fazendo uso inconsciente da propriedade humana da empatia que as leis e a sua gradação punitiva são estabelecidas [3] A adequada e proporcional responsabilização desde tenra idade (por exe...